24 quadros por segundo de verdade

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Midnight in Paris

Sentia a severidade em seu caminho sinuoso pelas pessoas. Desviava de suas expressões tão cegas, fechadas - Pequenas muralhas de dois lados: um com espinhos, o de fora, e um de olhos, o de dentro. Cansado do humor da noite, oprimia aquele ar rarefeito de vida. Pensou: “Serei o único louco que espera o uivo inesperado que desnorteia o mundo?”

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Sommaren med Monika

Escrever com a mão esquerda em troca de uma noite com ela: aposta. O começo instável, trêmulo e sem firmeza, semelhante aos primeiros anos da vida - uma caneta para infância. AAAA, BBBB, método semelhante a passos. E agora, no instante em que há grande dificuldade para escrever C, a recompensa pouco importa, pois a trajetória para chegar a se curar sozinho foi tão longa que a imersão em lembranças ora tristes ora felizes foi inevitável.

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Nostalghia

Tentou lidar com as decepções após compor imagens: disciplina. E lhe vem à lembrança o olhar direto que desnuda quando entregue a sincronia, a redenção nos olhos daquela estranha, que olhos para dissolver uma vida. Saiu pela porta automática, fingindo ouvir o humorado amigo, enquanto sentia apenas dois pares de olhos - as pessoas que passavam desfocadas, a escada rolante que mudava o ângulo, o parapeito do segundo andar onde restou o trem partindo.  Desmoronar e reerguer de novo - agora pensa olhando a mancha de ar úmido que se forma vapor quando respira na madeira negra do balcão onde se debruça cansado. 

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Ikiru

Decidiu inventar uma palavra. ZYRUSZASSARUM! Mal sabia pronunciá-la e mesmo assim deu-lhe vinte significados. Observou que não se tratava de uma palavrinha, mas sim um palavrão. A insônia de seus últimos dias roubou sonhos e vontade escrever, ou melhor, lidar com as palavras que já existem. Chegou a invejar o catador de sucatas que sempre encontrava em seu caminho e que escrevia compulsivamente em pedaços de papelão. Revolta das letras que querem seu momento de solidão. Deveria sem se respeitar a vontade delas, que por vezes só voltam a estar uma do lado das outras para formar acaso

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Rio Bravo

No bar dona Tereza foi onde ela ouviu que era desapegada. E como sempre, ela se consagrava ao (pelo) outro, e aceitou aquilo como se fosse uma sentença. Tomou um gole de sua cerveja e interrompeu-o pedindo para passar a mão em seu cabelo. A sensação foi diferente do que imaginava. Aproveitou a pausa para tomar a frente no dialogo e dizer de suas pretensões frustradas no cinema - gostaria de ter o beijado. Planejar é contar com o improviso. Deram risadas e ele compreendeu porque ela perguntou do nada se ele estava com frio.

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As amorosas

Anotou “A cor do pranto”. Era o titulo de seu próximo filme que não seria filmado, que vinha da conversa de um amor que não seria amado. Tudo ficaria sem forma, sem nome, sem rosto. Justamente quando a reflexão coletiva é sobre as lacunas que não desejamos que surjam. ” O invisível é espantoso”, anunciou a professora. A aula migrava para o tom cômico que sempre teve, e nenhum aluno ali sequer pensou sobre o assunto. Todos tinham destreza para se esquivar do que não tinha nome, e nenhum incluindo a mim, que agora escrevo neste caderno vermelho sem pauta, pretendia descobrir o que estava contido na mansidão caótica do desconhecido. Ansiavam mesmo a ida ao café daqui cinco minutos para quem sabe tomar um chocolate quente com um pão na chapa e apreciar o momento em que trocam olhares desconfiados.

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Noite Vazia

“…Sentindo o peso dos ossos mais do que nunca, até porque não vale o ontem nem o amanhã, vale está ultima vontade de me cobrir com você. Vou me deitar, apagar jamais” Estava apenas aproveitando de cada palavra que surge devagar, lentamente - se preparava para os sonhos de uma tarde de inverno. 09:38 da manhã, o corpo  cansado, a mente se esvaziando. Sem autor, sem nada. Fim do suspense.

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Terra Estrangeira

O saxofone começava a gritar após a suas ultimas palavras. Com a voz curtida, não de cachaça, de melancolia, o homem negro rasgava notas, assobiava, batucava no peito, evocava seus ancestrais. No pátio fora do teatro luzes azuis e brancas refletidas no chão formavam a palavra “JAZZ”. As pessoas fumavam para estragar o pulmão, e a vida nunca fora tão fácil. Naquele momento se sentiu gente, por paródia ao sentimento de pequeno burguês que invadiu suas entranhas calejadas. A música tem o poder de ser um estimulante ao abandono. Não precisava mais das palavras, sim o ventre de uma mulher que jamais viu chegar ou partir. 

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O bandido da luz vermelha

Jurou pela morte de sua mãe/A inocência/As mesmas palavras de sempre/O cansaço/Comum como procurar nomes/ O bem- humorado/Para tudo acabar perfeito/A ilusão/ No encosto da exatidão/ O arrogante/ Não chamo nada de poesia/ Tolice.